Entrevista com Carlos Ruiz Carmona

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Entrevista com Carlos Ruiz Carmona (Director)

Como surgiu a ideia de realizar o documentário?

Retrato surgiu, por um lado, de meu interesse e necessidade pessoal de compreender melhor a geração da Pós-guerra Civil Espanhola à qual meus pais pertencem. Em esse sentido, representa uma possibilidade de me aproximar à sua experiência de vida, à sua forma de ver o mundo, às suas preocupações intimas, seus sentimentos, desejos e à sua forma de raciocinar. Assim também representa entender como “o seu jeito”, a sua visão pessoal reflete e condiciona a minha vida. Por esse motivo considero do que a ideia do documentário nasce de um estúdio exploratório do meu passado, das minhas raízes, da geração passada que deu lugar à presente.

Por outro lado, para mim Retrato representa uma analise psicossocial e emocional do ser homem e mulher na ditadura, em um tempo de opressão, resignação, pobreza e silêncio. Um retrato de uma geração na qual as opções de vida tem sido severamente limitadas pela condição social precária e pela falta de educação. Todo isso representa a realidade dos meus pais e dos pais de muitas pessoas na Espanha depois da Guerra Civil Espanhola. Desde esta perspectiva Retrato intenta representar o ponto de vista da experiência de vida de essa geração através do retrato íntimo e honesto da minha família.

Porque fazer esse retrato de uma geração com os seus pais e não com as pessoas mesmas?

Eu pergunto o porque eu ia fazer o retrato com outras pessoas mas que com os meus pais? Para mim, nesse caso concreto, pelo tema e o contido, não tem nenhum sentido procurar outras pessoas para realizar essa reflexão e analise geracional. Isso significaria fugir da fonte primaria e o origem da inspiração que motivou fazer o documentário.

O porque branco e preto?

O branco e preto surge como uma opção natural para comprimir e fundir o presente e o passado em um único espaço e tempo.

A narrativa pretende criar um espaço temporal onírico e circular na que o presente e o passado estejam unidos em um tempo imóvel. Um espaço de autorreflexão onde os meus pais e eu podamos discutir, lembrar e pensar sobre a nossa vida. Por meio dessa meditação triangular representar e dar voz a essa geração que resulta da Pós-guerra Civil Espanhola.

Nesse sentido o branco e preto pretende uniformizar e dar a mesma qualidade plástica à imagem que representa o passado e o presente; as fotos de família do passado e às imagens em movimento o fotos que pertencem ao presente na narrativa.

Uns dos momentos mais fortes e comovedores do documentário é quando a sua mãe diz “eu nunca tem sido feliz”, é verdade, ou só uma reação do momento por algum ambiente?, Qual foi a sua reação quando a sua mãe pronunciou essas palavras?

A minha mãe afirma “nunca tem sido feliz” no inicio da narrativa e essa declaração serve como elemento dramático que introduz a personagem, minha mãe e o seu jeito de ver o mundo e a sua vida própria. A narrativa vai explorar, debater, questionar e analisar o conteúdo emocional e psicológico dessa afirmação: “nunca tem sido feliz”.

O que quer dizer “nunca tem sido feliz”? é possível para um ser humano nunca tem sido feliz? A minha mãe ilustra no documentário que sim foi feliz em vários momentos: na sua infância, com os seus avôs, na sua adolescência e juventude com os seus amigos, com o meu nascimento e com o meu pai.

No entanto, quando convido ela para meditar sobre a sua vida chega à conclusão do que em geral ela não considera que foi feliz, culpa em grande medida a o meu pai, porque considera que o meu pai não fez ela feliz como ela desejava, imaginava o idealizava.

A narrativa também apresenta outros motivos, minha mãe não teve “pais” que educaram ela, morou até os oito anos com os seus avôs e logo foi morar e trabalhar com famílias com uma situação social e econômica privilegiada. Até a adolescência trabalho sem descanso doze horas por dia unicamente pela comida e a dormida, como diz minha mãe, ela sente do que não teve infância nem juventude porque sempre trabalhou para os demais e não para ela mesma. Não teve tempo de brincar quando era criança, nem de estudar e aprender durante a adolescência o de crescer emocionalmente de forma natural. Como muitos outros que foram produto de exploração e injustiça que emerge de ser pobre, analfabeta e mulher. Essa experiência de vida provoca uma frustração indescritível. Uma grande insatisfação que leva a minha mãe à conclusão que nunca “teve vida” e por tanto nunca “foi feliz”.

Como eu me sinto com essa declaração? Obviamente frustrado. Eu desejaria poder ter tido a oportunidade de proporcionar aos meus pais, e nesse caso a minha mãe, algo impossível: outra vida mais justa e equilibrada. Mas claro, isso nunca vai ser possível. O que sim é possível é realizar um documentário onde os meus pais possam expressar e comunicar sem restrições.

Porque decide se radicar em Portugal?

Portugal foi o pais onde finalmente estabeleci a minha família depois de ter vivido em vários países. Em esse momento tenho uma filha com uma mulher portuguesa. No fundo desde que eu cheguei não tive o desejo de ir embora para outro pais como já ocorreu várias vezes anteriormente. Por isso eu me sinto em casa.

Está trabalhando em algum projeto em esse momento, poderia contar algo de ele para nós?

Desde 2005 trabalho em um documentário chamado provisionalmente Cultura. Esse projeto filmado na cidade de Porte e ao redores durante um período aproximado de cinco anos, mistura e explora a cidade sinfonia de autores como Vertov, Ruttman e o Vigo. A história analisa o conceito de cultura através de um retrato intimo da vida na cidade.

De outro lado, tenho dois projetos de documentário que nesse momento são candidatos para financiamento através de dois programas europeus. Esses projetos estão dedicados a continuar uma analise histórico da ditadura e a sua relação com a democracia e o processo de globalização.

Por último, estou também a desenvolver uma estratégia de financiamento para um largo de ficção, Antítese, que através de uma história de amor fatal explora a relação que existe entre a ficção e a realidade, e por consequência a relação entre aquilo que podemos desejar o imaginar e a realidade ou aquilo que podemos considerar “real”.

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