Entrevista com Lídia Jorge

Lidia Jorge

Lidia Jorge

 

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Entrevista com Lídia Jorge (Autor de A Costa dos Murmurios, livro no qual se baseiao filme A Costa dos Murmúrios)

Como surgiu o livro para você?

Em parte, esse livro contém o relato de uma memória vivida, ainda que transfigurada, voluntária e involuntariamente, como sempre acontece. Participei, enquanto, observadora privilegiada e comovida, dos últimos anos do domínio colonial português em Angola e Moçambique. À época, eu era casada com um oficial da Força Aérea em missões de combate e a realidade quotidiana vivida era muito diferente dos fatos reais. Foi desse contraste, entre o que se escrevia oficialmente e o que se passava no terreno, que a narrativa de "A Costa dos Murmúrios" foi imaginada.

O livro é só ficção ou tem alguns elementos biográficos, talvez seus ou da sua própria família?

Baseei-me em determinados fatos ocorridos em Moçambique no final da década de 60, que eu não vivi diretamente, mas cuja memória estava muito presente quando vivi na Beira. Refiro-me, sobretudo, à Operação Nó Górdio e, posteriormente, já mais próximo da minha vivência, ao Massacre de Wiriamu, ambos ocorridos no Norte de Moçambique. Mas a história que relato no livro foi-me muito próxima. Tratava-se do aparecimento misterioso de uns bidons boiando nos rios e no mar, contendo álcool metílico com o qual as populações locais, por ignorância, se envenenavam, se cegavam e morriam. Esse elemento, que no livro surge sob forma de garrafas empalhadas que surgiam na costa, e a mudança de caráter de um alferes com talento para a Matemática, mas transformado pela força das circunstâncias num carrasco de guerra, foram os dois elementos que deram corpo ao livro.

Como cidadã portuguesa, qual é a sua opinião sobre o processo de independência de Moçambique? Você acredita que o governo agiu de forma concreta?

A independência das ex-colônias portuguesas aconteceu tarde demais, quando a situação, de um lado e de outro já tinha apodrecido. Por isso os processos de transição incluíram grandes desastres e guerras terríveis. Mas não posso culpar o governo português . Nós próprios em Portugal vivíamos uma Revolução, que no primeiro momento, foi uma festa de alegria na História do século XX. Nessa festa estava incluída a autodeterminação dos novos países da África. Mas como travar a urgência, evitando a confusão e a perda para milhares de pessoas? Moçambique, como os outros territórios, não podia esperar. Estávamos todos, no mínimo, vinte e cinco anos atrasados. Começamos a correr na direção do futuro, e foi o que se viu. Por mais que se leia, só uma parte da prudência se aprende com a história.

No livro e no filme, a personagem vive sob a autoridade masculina. Essa seria uma situação vivida pela personagem ou seria a realidade da sociedade da época?

Nesse campo, a personagem Evita, interpretada no filme pela atriz Leonor Batarda, representa as mulheres do seu tempo. A figura da Helena de Tróia, também. Os movimentos de emancipação das mulheres ainda estavam na fase da conquista, isto é, na sua fase heroica. A tentativa de generalização, nas sociedades ocidentais, foi acontecendo lentamente, e como se sabe ainda está em processo. Mas para se avaliar a distância, basta pensar que nessa altura, altura também da Guerra do Vietnam, as mulheres não eram soldados, não iam à guerra. A menos que fossem médicas ou enfermeiras, isto é, como auxiliares. Olha-se para os contingentes atuais, e eles estão repletos de mulheres soldado. Uma metáfora que marca a diferença.

Como você vê o desenvolvimento do papel da mulher na sociedade portuguesa desde os anos 60?

Estamos a falar de Portugal, um país latino e de cultura católica. Isso significa que a evolução tem sido lenta, e que ainda agora há cantos de atividade por partilhar. Diria que as garotas portuguesas de hoje, em termos de formação, educação, ambição de desempenho de um papel ativo na sociedade, não estão longe do padrão normal da mulher europeia. Mas em termos de representação política, e na mídia, sim. Nas grandes decisões elas estão praticamente ausentes. Na mídia, as mulheres ainda se colam muito ao papel da boneca dos fogos. Aliás, a crise financeira que atravessamos atualmente, até potencia isso mesmo – a marginalização das mulheres, e, por contraste, o incentivo aos seus papeis de superfície. Não gosto disso.

Quais foram os seus outros livros adaptados para cinema?

Até agora só este conseguiu ir para diante. São sempre muitos os projetos, mas ficam encalhados nos financiamentos. Seriabom se houvesse boas novidades.

Você provavelmente já deve ter visto a adaptação do seu livro feita pela Margarida Cardoso. Qual é a sua opinião sobre o trabalho ?

Acho o filme da Margarida Cardoso bom . A cena da matança dos pássaros já é uma sequência clássica no cinema português. Também o olhar da protagonista, surpreendido do princípio ao fim, é extraordinário. A Margarida Cardoso fez do meu livro um objeto diferente, mas revestiu-o da mesma alucinação, a mesma memória delirante, com uma verdade tórrida oferecida de forma suave, como se nada fosse. Gostei muito dessa pose da Margarida, num tempo em que o cinema se transformou num pano encharcado de violência e sangue. Ela soube filmar a guerra com repulsa e imensa decência. Não é fácil. Plasticamente, o filme é muito belo. Neste caso, não pertenço ao grupo dos escritores que passam ao pugilato com os realizadores dos filmes a que os livros dão origem.

Quando você criou "A Costa dos Murmúrios", você com certeza colocava rosto em seus personagens conforme o livro ia se desenvolvendo. O elenco escolhido para o filme se assemelha com a imagem criada por você?

É muito diferente. Quando se escreve um livro de ficção conhecemos melhor o coração e a alma das personagens do que os seus traços fisionômicos, a sua altura, a cor dos cabelos. Depois vem o cinema ou o teatro e aquela imposição do modelo físico é avassalador. Impõe-se. O que posso dizer é que nenhum dos atores defraudou a imagem das personagens. No caso das mulheres, a Evita e a Helena de Tróia, sinto-as tão fortes que acabaram por integrar o imaginário prévio. O mesmo aconteceu com o noivo Alex e com o Major Forza Leal. Espaços, cenas, canções, nada me atrapalha no regresso ao livro, em que o que me interessa são as vozes, os murmúrios das vozes que eu desejei que se prolongassem antes que a história os diluísse em nada. Para isso, o filme da Margarida Cardoso é o melhor colaborador que poderia ter encontrado.

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